26 Dezembro 2011

Natal em Santo André

O dia de Natal anunciava-se cheio de acontecimentos gerando, em mim, expectativas mistas de alegria e cansaço.
Aqui em Madadeni é tradição ter Baptismos de crianças na festa do nascimento de Jesus. 
O dia antes de Natal foi assim preenchido com reuniões de pais das crianças a serem baptizadas: um total de trinta e sete baptismos em duas comunidades.

Mas havia uma outra comunidade, Santo André, onde tínhamos concordado fazer a Primeira Comunhão de dez adolescentes - dos onze aos dezoito anos - a primeira vez que havia Primeiras Comunhões nessa comunidade. No início da tarde do dia 24 encontrámo-nos para a celebração do Perdão e para deixar tudo em ordem para a celebração de Eucaristia do Nascimento do Senhor e Primeira Comunhão. Estava tudo muito bem orientado: as catequistas tinham preparado muito bem as crianças que, não obstante tudo, manifestavam nervosismo misturado com expectativa. Tudo muito bem mas... a comunidade de santo André não tem igreja ou capela, reúnem-se numa garagem cedida por uma senhora.

A Missa de Natal, em Santo André, estava agendada para as doze horas dado que, antes disso, eu teria celebrações ás oito e ás dez. As duas primeiras celebrações tinham Baptismos e acabei por começar a Missa das doze ás... treze e trinta. Meus Deus, que vergonha... Mas, ao chegar, lá estavam as pessoas sentadas em ordem e a... cantar! Pedi desculpa pelo atraso e, tinha que o fazer, agradeci pelo testemunho que me deram.

As crianças da primeira Comunhão - duas raparigas e oito rapazes - estavam tão cheios de alegria que um deles, ao agradecer, disse: "obrigado ao nosso bispo Zé por nos ter dado, pela primeira vez, a sagrada Comunhão". Foi risada geral!
As duas catequistas do grupo - uma delas é a dona da garagem onde nos reunimos - organizaram um almoço para as crianças e o padre: foi o meu almoço de Natal.

No final as crianças levaram para o meu carro os frutos do ofertório da Missa: Uma abóbora, cenouras, batatas, cinco litos de óleo, feijões enlatados... 
Este meu Natal foi, na verdade, um Natal muito quente e não pelo facto de temperatura rondar os 36 graus, mas pelo nível de genuína alegria e fraternidade. Na verdade, nasceu-nos HOJE o Salvador - Jesus Cristo Senhor!
Feliz Natal.

23 Dezembro 2011

aos cristão de Madadeni

Aqui vai a carta que acabo de escrever aos cristãos das comunidades católicas de Madadeni: são cinco comunidades, três delas razoávelmente estabelecidas e duas em desenvolvimento.
A carta está escrita em Zúlu - é essa língua que usamos nesta township (aqui na África do Sul essa palavra, "township", vem dos tempos do apartheid e designa uma área urbana onde os negros eram obrigados a viver no tempo da discriminação racial). 
Mesmo sendo "área urbana" Madadeni - 250.000 habitantes - não tem nada a ver com a cidade de Newcastle a 15 quilómetros de distância.
De qualquer modo, aqui fica a carta: Feliz Natal e...boa leitura!

22 Dezembro 2011

Feliz Natal!


15 Novembro 2011

recomeçar

Terminado o meu serviço de três aos missionários da Consolata na África do Sul, volto agora ao trabalho pastoral na Diocese de Dundee, na província do KwaZulu-Natal.

A Diocese de Dundee (51.867 Km2) tem uma população de 1.500.000, dos quais 75.000 são Católicos. 
A média de Católicos da África do Sul é de 7%.

Os missionários da Consolata iniciaram o seu serviço missionário na Diocese de Dundee em 1971 e, hoje, encontram-se a trabalhar também nas Arquidioceses de Pretoria, Joanesburgo e Durban.

Desde Setembro de 2008 temos também um Seminário Maior onde 12 jovens de vários países africanos se preparam para o sacerdócio missionário. Um jovem sulafricano - natural de Madadeni - encontra-se em S. Paulo, Brasil, a fazer os estudos de Teologia.

Esta é a terceira vez que sou enviado para trabalhar na Diocese de Dundee onde comecei em 1985. 
O mandato que me foi dado é para as comunidades de Madadeni, uma township (antiga cidade para sulafricanos negros) a quinze quilómetros da cidade de Newcastle, no norte da Província do KwaZulu-Natal.

Em Madadeni residem quatro missionários na mesma comunidade, mas cada um tem a sua zona de acção apostólica.

Voltar a Madadeni é um recomeço dado que a zona e as comunidades que me são confiadas são novas para mim, mesmo se já lá vivi durante três anos pois o meu apostolado desenrolava-se em Osizweni.

"... para anunciar a Boa Nova aos pobres"

05 Novembro 2011

“Morro mas vou com os amigos”

Estimado P. Armando,

Bem hajas pela tua presença na minha vida.

Bem hajas pela tua alegria, pela tua energia e determinação.

Bem hajas, de todo o coração, pela tua fraternidade.


Encontrámo-nos muitas vezes, mas os encontros mais significativos - aqueles que deixaram marcas - aconteceram nos últimos anos: Agradeço o Senhor da Vida por nos ter proporcionado esses momentos cheios de intensidade e alcance.


Passei várias vezes por Proença nos últimos anos por motivo da situação de saúde da minha Mãe.

Foram sempre períodos muito breves - as exigências da Missão não permitiam mais - mas sempre me disponiblizei para os serviços pastorais e tive a Bênção de partilhar contigo e com os teus Irmãos bastantes momentos.


Recordo a tua insistência para que eu fosse tomar as refeições convosco: "não precisas avisar", dizias, "vem e senta-te á mesa"!

Recordo quando me convidaste para intervir num Convívio Fraterno com uma palestra e Eucaristia.

Recordo a tua azáfama e preocupação em me proporcionar um meio de transporte para as Eucaristias dominicais: por duas vezes me deste o teu próprio carro, a última das quais era um veículo que tínheis comprado há muito pouco tempo. "Sempre que vieres a Proença usa um transporte nosso, não precisas de usar o da tua família".

Recordo as horas passadas, na vossa sala de estar, em partilha de vida: preparando a liturgia dominical e condividindo a vida nos seus altos e baixos: como eu admirei a tua serenidade e confiança!


Armando, há bastantes anos houve, porém, um momento que me marcou muito pela transparência com que te revelaste. Encontrámo-nos no Eco e bebíamos um café - ou era uma cerveja? - quando tu me contavas da viagem que tinhas acabado de fazer ás Missões dos teus Irmãos na Guiné Bissau: "sabes, Zé, não tenho vergonha de dizer que esta viagem me transformou, sou um homem diferente hoje e tenho uma visão nova da Igreja, não há nada como ser missionário!" 

Certo, a conversa decorria entre dois membros do mesmo 'sindicato' - dois missionários - e não havia nada de melhor do que saber e sentir que estávamos no sítio certo a fazer aquilo que o Mestre queria de nós. 


É verdade, Armando, "não ha nada como ser missionário": bem hajas de todo o coração!

Teu irmão, p. josé martins fernandes.

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"Morro mas vou com os amigos"


Esta foi a última mensagem que o P. Armando pediu para escrever no seu telemóvel como resposta  a um familiar. 

Depois de um calvário longo e com muito sofrimento, o Padre Armando Tavares partiu de forma serena às 6h30 do dia 3 de Novembro de 2011. Que descanse em Paz!


O P. Armando Tavares Pereira Alves, filho de José Pereira Alves e de Maria do Carmo Tavares, membro da Congregação do Preciosíssimo Sangue, nasceu a 11 de Junho de 1950, no Pergulho de Proença-a-Nova e foi ordenado sacerdote a 7 de Julho de 1974.


Foi responsável diocesano pelo Movimento dos Convívios Fraternos; Secretário Diocesano do Ensino da Igreja nas Escolas; Membro do Conselho Pastoral Diocesano e Pároco de Proença-a-Nova, S. Pedro do Esteval, Peral e Cardigos.

22 Outubro 2011

A missão universal envolve todos, tudo e sempre

Dia Mundial das Missões 2011: 

Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós» (Jo 20, 21)

 

Por ocasião do Jubileu do Ano 2000, o Venerável João Paulo II, no início de um novo milénio da era cristã, afirmou com força a necessidade de renovar o empenho de levar a todos o anúncio do Evangelho «com o mesmo entusiasmo dos cristãos da primeira hora» (Carta ap.Novo millennio ineunte, 58). É o serviço mais precioso que a Igreja pode prestar à humanidade e a cada pessoa que está em busca das razões profundas para viver em plenitude a própria existência. Por isso, o mesmo convite ressoa todos os anos na celebração do Dia Missionário Mundial. Com efeito, o anúncio incessante do Evangelho vivifica também a Igreja, o seu fervor, o seu espírito apostólico, renova os seus métodos pastorais a fim de que sejam cada vez mais apropriados às novas situações — inclusive as que exigem uma nova evangelização — e animados pelo impulso missionário: «A missão renova a Igreja, revigora a sua fé e identidade cristãs, dá-lhe novo entusiasmo e novas motivações. É dando a fé que ela se fortalece! A nova evangelização dos povos cristãos também encontrará inspiração e apoio, no empenho pela missão universal» (João Paulo II, Enc. Redemptoris missio, 2).

 

Ide e anunciai

Este objectivo reaviva-se continuamente através da celebração da liturgia, em especial da Eucaristia, que se conclui sempre evocando o mandato de Jesus ressuscitado aos Apóstolos: «Ide...» (Mt 28, 19). A liturgia é sempre uma chamada «do mundo» e um novo início «no mundo» para testemunhar o que se experimentou: o poder salvífico da Palavra de Deus, o poder salvífico do Mistério pascal de Cristo. Todos aqueles que encontraram o Senhor ressuscitado sentiram a necessidade de O anunciar aos outros, como fizeram os dois discípulos de Emaús. Eles, depois de ter reconhecido o Senhor ao partir o pão, «partiram imediatamente, voltaram para Jerusalém e encontraram reunidos os onze» e contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho (Lc 24, 33-35). O Papa João Paulo II exortava a estarmos «vigilantes e prontos para reconhecer o seu rosto e correr a levar aos nossos irmãos o grande anúncio: "Vimos o Senhor"!» (Carta ap. Novo millennio ineunte, 59).

 

A todos

Todos os povos são destinatários do anúncio do Evangelho. A Igreja «por sua natureza é missionária, visto que, segundo o desígnio de Deus Pai, tem a sua origem na missão do Filho e na missão do Espírito Santo» (Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Ad gentes, 2). Esta é «a graça e a vocação própria da Igreja, a sua mais profunda identidade. Ela existe para evangelizar» (Paulo vi, Exort. ap. Evangelii nutiandi, 14). Consequentemente, nunca pode fechar-se em si mesma. Enraíza-se em determinados lugares para ir além. A sua acção, em adesão à palavra de Cristo e sob a influência da sua graça e caridade, faz-se plena e actualmente presente a todos os homens e a todos os povos para os conduzir rumo à fé em Cristo (cf. Ad gentes, 5).

 

Esta tarefa não perdeu a sua urgência. Aliás, «a missão de Cristo Redentor, confiada à Igreja, ainda está bem longe do seu pleno cumprimento... uma visão de conjunto da humanidade mostra que tal missão ainda está no começo e que devemos empenhar-nos com todas as forças no seu serviço» (João Paulo II, Enc. Redemptoris missio, 1). Não podemos permanecer tranquilos com o pensamento de que, depois de dois mil anos, ainda existam povos que não conhecem Cristo e ainda não ouviram a sua Mensagem de salvação.

 

Não só mas aumenta o número daqueles que, embora tendo recebido o anúncio do Evangelho, o esqueceram e abandonaram, já não se reconhecem na Igreja; e muitos âmbitos, inclusive em sociedades tradicionalmente cristãs, hoje são refratários a abrirem-se à palavra da fé. Está em acto uma mudança cultural, alimentada também pela globalização, de movimentos de pensamento e de relativismo imperante, uma mudança que leva a uma mentalidade e a um estilo de vida que prescindem da Mensagem evangélica, como se Deus não existisse e exaltam a busca do bem-estar, do lucro fácil, da carreira e do sucesso como finalidade da vida, inclusive em detrimento dos valores morais.

 

Co-responsabilidade de todos

A missão universal envolve todos, tudo e sempre. O Evangelho não é um bem exclusivo de quem o recebeu, mas é um dom a partilhar, uma boa notícia a comunicar. E este dom-empenho está confiado não só a algumas pessoas, mas a todos os baptizados, os quais são «raça eleita... nação santa, povo adquirido» (1 Pd 2, 9), para que proclame as suas obras maravilhosas.

 

Estão envolvidas também todas as suas actividades. A atenção e a cooperação na obra evangelizadora da Igreja no mundo não podem ser limitadas a alguns momentos ou ocasiões particulares, e nem devem ser consideradas como uma das tantas actividades pastorais: a dimensão missionária da Igreja é essencial e, portanto, deve estar sempre presente. É importante que tanto cada baptizado como as comunidades eclesiais se interessem pela missão não de modo esporádico e irregular, mas de maneira constante, como forma de vida cristã. O próprio Dia Missionário não é um momento isolado no decorrer do ano, mas uma ocasião preciosa para nos determos e reflectirmos se e como correspondemos à vocação missionária; uma resposta essencial para a vida da Igreja.

 

Evangelização global

A evangelização é um processo complexo e inclui vários elementos. Entre estes, uma atenção peculiar da parte da animação missionária sempre foi dada à solidariedade. Este é também um dos objectivos do Dia Missionário Mundial que, através das Pontifícias Obras Missionárias, solicita a ajuda para a realização das tarefas de evangelização nos territórios de missão. Trata-se de apoiar instituições necessárias para estabelecer e consolidar a Igreja mediante os catequistas, os seminários, os sacerdotes; e também de oferecer a própria contribuição para o melhoramento das condições de vida das pessoas em países nos quais são mais graves os fenómenos de pobreza, subalimentação sobretudo infantil, doenças, carência de serviços médicos e para a instrução. Isto também faz parte da missão da Igreja. Anunciando o Evangelho, ela toma a peito a vida humana em sentido pleno. Não é aceitável, afirmava o Servo de Deus Paulo VI, que na evangelização se descuidem os temas relativos à promoção humana, à justiça e à libertação de todas as formas de opressão, obviamente no respeito pela autonomia da esfera política. Não se interessar pelos problemas temporais da humanidade significaria «esquecer a lição que vem do Evangelho sobre o amor ao próximo que sofre e está em necessidade» (cf. Exort. ap. Evangelii nuntiandi, 31.34); não estaria em sintonia com o comportamento de Jesus, o qual «percorria as cidades e as aldeias, ensinando nas sinagogas, proclamando a Boa Nova do Reino e curando todas as enfermidades e doenças» (Mt 9, 35).

 

Assim, através da participação co-responsável na missão da Igreja, o cristão torna-se construtor da comunhão, da paz, da solidariedade que Cristo nos concedeu, e colabora para a realização do plano salvífico de Deus para toda a humanidade. Os desafios que ela encontra chamam os cristãos a caminhar juntamente com os outros, e a missão faz parte integrante deste caminho com todos. Nela conservamos, embora em vasos de barro, a nossa vocação cristã, o tesouro inestimável do Evangelho, o testemunho vivo de Jesus morto e ressuscitado, encontrado e acreditado na Igreja.

 

O Dia Missionário reavive em cada um o desejo e a alegria de «ir» ao encontro da humanidade levando Cristo a todos. Em seu nome concedo-vos de coração a Bênção Apostólica, em particular àqueles que mais trabalham e sofrem pelo Evangelho.

 

BENEDICTUS PP. XVI

 

21 Outubro 2011

Ó Consolata!